Pacto mortal
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Posteridade
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A roda

Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) é autor do mais importante tratado de educação, o Emílio. Tão fantástico que Kant, sempre tão pontual, a ponto de a população da cidade na qual vivia acertar os relógios ao vê-lo passar em seus passeios diários, se atrasou uma única vez : no dia em que recebeu o Emílio pelo correio, pois não conseguiu parar de ler.

Diga-se de passagem, o mesmo Kant que afirmou, cheio de razão, que “o que se designa como estupidez é a carência da faculdade de julgar e para semelhante enfermidade não há remédio”.

Quanto a Rousseau, o fato de ter escrito aquela obra de educação tão fantástica não o impediu de pôr seus 5 filhos ilegítimos na chamada “roda dos enjeitados”, uma espécie de passador de pizza em portão de prédio, mas que permitia que os bebês fossem recolhidos discretamente.

Dentre outras características, Rousseau tinha mania de perseguição. Via complôs em toda parte, além de inimigos e conspirações contra ele.

Verdade que em certa ocasião a casa dele em Môtiers foi apedrejada e quando fugiu para a ilha de Saint Pierre foi expulso de lá. Por isso David Hume (1711-1776) se ofereceu para ajudá-lo, convidando-o a passar uma temporada na Inglaterra.

O barão de Holbach (1723-1789) logo disse a Hume que ele estava “alimentando sem saber uma víbora em seu regaço”. Quem avisa, amigo é.

Não demorou para Rousseau se indispor com o escritor Horace Walpole (1717-1797) e, de quebra, envolver Hume na querela, acusando-o de ser o instigador dos problemas com Walpole.

O motivo foi uma brincadeira maldosa. Alguém (Hume não teve nada a ver com a história) publicou uma carta falsa onde o autor, fazendo-se passar pelo rei Frederico II da Prússia, oferecia a Rousseau sua ajuda e proteção. A sátira espicaçava Rousseau num parágrafo em que o falso Frederico II dizia :

– Já que gosta tanto de ser perseguido, comigo acertou, pois como sou rei posso providenciar todo tipo de perseguição.

 

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