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6 de janeiro de 2020
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6 de janeiro de 2020

Canto de sereias

No canto XII da Odisseia, quando fala das sereias, Homero diz que ao tentar seduzir Odisseu elas prometem a ele conhecimentos sem fim –  do que já passou e de tudo o que existe – o conhecimento total ; nada mais, nada menos do que aquilo que promete hoje o Google : a desmedida, o exagero da informação, tudo ao alcance num clic.

A mesma desmedida do Fausto, de Goethe, a mesma do Retrato de Dorian Grey, de Oscar Wilde

A palavra Google foi calcada em cima do termo googol, que designa o número 1100, ou seja, o número 1 seguido de 100 zeros ; ele não tem um significado especial na matemática, mas é útil quando comparado a outras quantidades muito grandes ; outros nomes para o googol incluem dez duotrigintilhões em pequena escala, dez mil sexdecilhões em longa escala ou dez sexilhões em grande escala.

Essa é a missão à qual se propõe o Google : organizar as informações em escala mundial para torná-las acessíveis a todos ; missão declarada, oficial.

Mas o que se esconde por trás, o que não é declarado ? Homero deixa entrever o perigo : Odisseu precisa ser amarrado ao mastro do navio para não ceder à tentação à qual nós cedemos, de querer matar a sede de saber sobre tudo, em todas as épocas e controlar esse conhecimento todo e ter o poder de transmiti-lo.

O problema é que a transmissão exige uma hierarquização : para divulgar todas as informações, é preciso hierarquizá-las ; essa atividade de coleta de dados é interessante, mas perigosa, ela enfeitiça e ao mesmo tempo é mortífera, pois o Google sabe mais de nós do que qualquer pessoa de nosso círculo íntimo. Muito mais.

E somos nós que entregamos – de graça, todos esses dados pessoais tão preciosos, pelas buscas que fazemos ; é assustador, pois atualmente o Google já disponibiliza o sequenciamento de DNA – ou seja, pede singelamente que forneçamos a ele o acesso (gratuito) aos nossos genes !

O Google é a sereia das sereias, nos seduziu com a promessa de oferecer o que na verdade já pratica : saber tudo sobre todo mundo – e controlar tudo.


E quem é esse gigante, a imagem mesma da desmedida ? Do que somos prisioneiros ?     Vejamos.

Google, Amazon, Facebook, Apple e Netflix sãs as empresas que deram origem à criação da sigla GAFAN, a ponta de lança de uma abordagem agressiva e perigosa.

Por exemplo (mas não só), em 2019 elas se reuniram num pool que abriga 17 empresas (todas americanas) que são a base de sustentação e exploração da moeda virtual Libra – algo tão desmesurado, que autoridades da União Europeia já alertaram para o perigo de uma criptomoeda supranacional, ameaça explícita ao Estado-Nação.

O Estado-Nação é a forma pela qual as sociedades se organizam, sob o comando de um governo instituído que estabelece suas políticas ; os mecanismos de controle são as instituições legais e um exército permanente.

Quanto à criptomoeda, ela é uma moeda virtual, um dinheiro que não existe, uma moeda que não existe, criada por um grupo de instituições privadas supranacionais, não vinculada a um Banco Central ou a um órgão regulador, sem fiscalização : ou seja, uma moeda soberana, um sistema autônomo e paralelo que pode assumir proporções perigosas.

Se o tema interessar, temos 2 palestras a esse respeito : Redes sociais e Criptomoeda – será ?  Nelas falo disso com mais detalhes e sob outra ótica.

O poder supra-nacional desses gigantes americanos é tal que a Dinamarca nomeou o 1º embaixador de tecnologias do mundo, para lidar com Google, Apple e Facebook ! “Nossos valores, instituições, democracia e direitos humanos estão sendo colocados em xeque o tempo todo, graças ao surgimento de novas tecnologias. Essas empresas deixaram de ter apenas interesses comerciais e passaram a agir como verdadeiros atores da política externa”, declarou Casper Klynge.

E não é só isso : essas mesmas empresas sonegam impostos nos países em que ganham zilhões de dólares, ludibriando o fisco a ponto de o Google ter perdido em meados de 2019 um processo bilionário na Justiça Francesa ; tão importante e tão bilionário que essas empresas todas, diante da ameaça de jurisprudência, propuseram um acordo à União Europeia. A contrapartida para não se processar todas elas é a criação de um modelo internacional de recolhimento de impostos, que até hoje esses gigantes veem sonegando ; Trump, o presidente americano, não gostou e tomou medidas de retorsão, mas aparentemente a festa acabou.

E tem mais : um processo coletivo, de autoria principalmente de juristas, foi aberto em 2019 para levar aos tribunais internacionais o Google, a Tesla, a Apple e a Microsoft por uso e exploração e mão-de-obra infantil nas minas de exploração de cobalto no Congo, e também pelo grande número de mortes dessas crianças ; o cobalto é indispensável para a fabricação de baterias de celulares, computadores e outros aparelhos, e o Congo detém 60% das reservas mundiais desse metal ; além de usar crianças para trabalhar nas minas, elas são extremamente mal pagas (recebem em média 0,5 dólar por dia) e morrem como moscas, pois com frequência acontecem desabamentos de minas.

O Facebook é multado repetidamente por compartilhamento – leia-se venda, de dados dos usuários ; até no Brasil, em dezembro de 2019 Sergio Moro determinou que se multasse o gigante das redes sociais.

Em outro Desmistificando – O sonho da imortalidade, falo do chamado transhumanismo. Discuto o tema também na palestra Ex machina, com outro foco. A discussão me parece necessária, pois quando se fala de promessa de juventude eterna, se está falando de controlar o tempo. E que, justamente, vende essa promessa ? O Google – com a Calico, empresa de biotecnologia comandada pelo atual presidente da Apple e sucessora da Google Health.

Aquiles encarna a figura do guerreiro que escolhe a imortalidade na glória – ambas divinas – em vez de uma longa vida prosaica. Mas é uma escolha.

Claro que todos nós gostaríamos de reter o tempo : filósofos como Descartes e Voltaire afirmaram que o verdadeiro poder é o domínio do tempo.

E o tempo e a duração da vida no tempo são um símbolo que a religião monoteísta vende há séculos como promessa e o Google vende agora como mercadoria.

O que me faz pensar no enigma da esfinge  que afligia a cidade de Tebas, na Grécia. Ela dizia a frase que ficou famosa, decifra-me ou te devoro, e perguntava :  Que criatura tem 4 pés pela manhã, ao meio-dia tem 2 e à tarde tem 3 ? E  estrangulava quem não conseguisse responder – daí a origem do nome esfinge, que em grego sphingo significa estrangular.

Isso até que Édipo conseguiu decifrar e respondeu : O homem, pois engatinha na infância, anda ereto na idade adulta e necessita de bengala na velhice.

Essa promessa de juventude eterna pode parecer sedutora, como um canto de sereias, e ela se desdobra em 2 (por enquanto) : viver por muitas décadas mais e ter aparência sempre jovem. Sem as marcas do tempo que enobrecem homens, mas parecem ser proibidas em mulheres, cada vez mais parecidas com clones, em certas sociedades.

Obrigada, até a próxima !

Se o tema interessar, temos 2 palestras a esse respeito : Redes sociais e Criptomoeda – será ? 

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