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Continência socrática

Sócrates (séc. -V), gozava da amizade do belo Alcibíades – estadista, orador e general ateniense. A relação entre ambos sempre foi motivo de comentários maldosos, mas também de elogios ao mestre, pela continência da qual deu provas.

Conta-se que Sócrates não quis ceder à tentação do desejo pelo jovem, que oferecia repetidamente a ele seus favores sexuais. Ora, Bion de Borístene (séc. -IV), filósofo cínico, famoso por suas tiradas e paródias, zombava dessa continência socrática alegando que de duas, uma : ou bem desejava Alcibíades e se absteve de conseguir seus favores, e então foi tolo ; ou bem não o desejava, e então não havia mérito algum.

Ainda sobre a conduta discreta de Sócrates, Platão o mostra constrangido e perturbado, numa famosa passagem do Banquete, quando o manto de Cármides, um jovem discípulo, se abre deixando à mostra a nudez do belo corpo.

E o mestre admite : “[…] percebi uma beleza que me inflama […] e pensei que Cídias era um grande mestre nas coisas do amor, pois advertira um amigo a respeito de belo jovem, dizendo : cervo vindo diante de um leão, cuidai para que ele não te arranque pedaço da tua carne. Pois eu me senti como sendo vítima de um encontro desse tipo.” (155d3-e1).

Ou seja, apesar da resistência já demonstrada aos encantos de Alcibíades, Sócrates ainda não tinha se libertado completamente dos efeitos da fascinante beleza dos corpos, confessando que, afinal, o sensível ainda o abalava profundamente.

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