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Espírito

As crenças dos outros são superstições. As nossas chamam-se religião.

Talvez a palavra espírito seja a que mais demonstra o estrago que uma “interpretação” pode fazer, ou uma tradução forçada. É exemplar, pois trata-se da confusão entre os conceitos de espírito e alma.

O primeiro trabalho de todo filósofo deve obrigatoriamente ser o de arqueologia, ou seja, escavar o solo em que o conceito está enterrado e escondido, tirar o pó que o recobre, encontrar a palavra primeira, onde está seu sentido. O resto são leituras, interpretações, traduções, adaptações.

Claro que a tarefa do filósofo vai além disso, pois não somos meros técnicos. A Filosofia é um ofício de vida – de prática, sobretudo.

Mas num primeiro momento é fundamental ser honesto e procurar a origem, etimologicamente falando. Quando não fazemos isso, corremos o risco de transformar espírito em alma, por exemplo.

Pois como bem disse Miguel de Unamuno, “As palavras precisam ser quebradas, para ver o que têm dentro.”

No seminário intitulado Espírito falo da origem da palavra, que é grega, e sobre como e por que ela acabou sendo traduzida como alma, em latim. E das implicações todas – teóricas, mas não só, dessa mudança ocorrida com a tradução. Abordando inclusive Aristóteles e sua classificação da vida. Acredite, tem tudo a ver.

Nós vamos quebrar a palavra, para ver o que ela tem dentro, e olhar mais de perto a escrita – essa escrita grega, que inventa o alfabeto que até hoje é o nosso. Porque é nessa bela escrita que a palavra espírito algo especialmente bonito – para dizer a verdade, foi ao aprender isso numa aula, há muito tempo já, que entendi o motivo de o grego ser a língua dos Deuses. É o seguinte: quando a 1ª letra de uma palavra é uma vogal, ela tem em cima um acento que parece uma cedilha. Quando esse sinal está virado para a direita, dizemos que o espírito é suave, e quando ele está virado para a esquerda, que o espírito é rude.

Nesse caso, vamos aspirar o som da vogal, como em alemão ou inglês, como por exemplo na palavra hotel.

Pois é, a palavra espírito não poderia mesmo ter origem mais bela: assinalar se uma palavra tem espírito suave ou rude!

Inscreva-se, eu garanto que a discussão é apaixonante e vai abrir seus horizontes.

Até a próxima!

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