Brésil : la dangereuse fuite en avant de Bolsonaro
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Reflexões sobre um recente editorial francês

Alessandro Francisco[1]

No editorial de 18 de maio do jornal francês Le Monde, a fala de Marcellus, personagem da peça Hamlet, de William Shakespeare, é recuperada : Something is rotten in the state of Denmark. Marcellus alerta Hamlet sobre o perigo existente. Contudo, no periódico francês, o aviso é para a comunidade internacional… e para nós, brasileiros. Segundo o texto, que centra sua análise nas posturas de nosso atual presidente e naquelas de alguns de seus ministros, há sinais de putrefação no Brasil.

A despeito do desfecho em tom de anúncio e de chamamento, mediante afirmação de que o país corre o risco de se envolver numa perigosa investida devido às atitudes de seu chefe de Estado e de sua equipe, é um excerto situado mais ou menos na metade do escrito que merece nossa atenção : “o Brasil de Bolsonaro habita um mundo paralelo, um teatro do absurdo em que os fatos e a realidade não mais existem”. A frase reflete com exatidão o termo-diagnóstico que tenho usado para me referir à situação vivenciada em nosso país : devaneio. “Não há pandemia”, “não são tantas as vítimas da infecção”, “estamos sob uma ameaça internacional comunista”, “a culpa é dos marxistas”, “há uma conspiração de todos contra o governo”.

Enquanto essa conduta, mais digressiva que agressiva, se faz insistente, os frágeis alicerces do Brasil – próspero pela variedade cultural de seu povo e pela abundância de recursos coligida em sua extensão –, há pouco erigidos, oferecem-se a um processo de extenuação e, portanto, de arrasamento.

Sublinhe-se que, segundo penso, o mesmo diagnóstico deve ser aplicado àqueles que veem nas medidas do atual governo indícios de uma espécie de conspiração, pois partem do pressuposto de que, “por trás” delas, haveria uma razão. Ora, nosso sentimento de angústia é experimentado precisamente pela ausência de qualquer evidência de projeto, de plano. Certamente, há posições e medidas que respondem a interesses de determinados grupos, mas não há qualquer plano e, por conseguinte, não há uma razão ou inteligência que conjugue o propósito de um grupo especifico, uma vez que não há nada por meio do que ele possa ser implementado. A única estratégia presente é aquela difusa das relações saber-poder intrínsecas à racionalidade ocidental de nosso tempo.

O desarranjo de nossa conjuntura econômica e a inércia do mercado doméstico, mesmo com a manutenção da taxa SELIC a 3% a.a., corroboram minha percepção. Muitos empresários – industriais, proprietários de grandes redes comerciais e de serviços, o agronegócio –têm sido igualmente prejudicados. A construção civil, crente no prosseguimento dos programas sociais que permitiram sua consolidação desde 2009, perdeu orçamento, seja na forma de subsídio destinado às famílias de baixa renda, seja em função da ineficiência na gestão de recursos do FGTS.

Jamais a relação entre política e economia se revelou tão inequívoca àqueles que defendiam um caráter puramente técnico do manejo dos instrumentos econômicos. A instabilidade política e a flutuação administrativa, atestadas, dentre outros, pela troca de ministros e de secretários e pelas profusas alterações de rota enquanto permanecem em exercício, não fazem senão afastar investidores. Na Bolsa de valores, tem-se apenas um movimento especulativo doméstico. Em suma, sequer a recente figura do saber que denominamos mercado tem obtido êxito.

Pois bem, conhecidos alguns dos sintomas da atual gestão do Estado e apurado seu diagnóstico, cabe-nos deslindar a origem do sofrimento. Decerto, as causas são variadas : o comportamento é manifestação de uma estrutura, já nos advertira Maurice Merleau-Ponty em sua tese complementar de doutorado. Não obstante, uma é digna de destaque, porque patente. Apenas um sentimento explica manifestações digressivas e discursos que persistentemente se retiram do âmbito do diálogo e da discussão : o medo. A mesma evasão se fez ver no período eleitoral, inviabilizando o debate sobre as concepções de Estado e de governo dos postulantes à presidência da República e, consequentemente, impossibilitando que o “projeto” do candidato eleito fosse conhecido com nitidez. A mesma deserção sucedeu no domingo recente, dia 17 de maio, com a suspensão de um pronunciamento à nação.

Sublinhe-se que o intento de aniquilar um oponente ilusório – marxismo, comunismo, esquerdismo ou qualquer designação que se lhe ofereça – e as mencionadas digressões não estão escoradas numa espécie coragem que aspiraria a uma demonstração pública de força pelo confronto dialógico. Longe disso, observamos atônitos a uma autêntica expressão de temor. Não há, portanto, apresentação de um programa seguida de análises e de interlocução, mas infindáveis negações e evasões aliadas a agrupamentos de deliberações heterogêneas e erráticas.

Diante desse quadro, não há outra saída – no duplo sentido do termo alemão Ausgang, evocado por Immanuel Kant em 1784 – senão atender à advertência de Marcellus tal como atualizada pelo editorial do Monde, que nos intima a encarar a realidade sem renegá-la e sem dela nos evadir, reivindicando-nos ao campo das práticas, isto é, ao pensamento e à ação. Carente de projeto, o Brasil brada pelo entendimento e pela coragem de seu próprio povo.


[1] É economista e Doutor em Filosofia pela PUC-SP e pela Université Paris 8, com Pós-Doutorado na École Normale Supérieure de Paris.

1 Comment

  1. Armeny Silva Cardoso disse:

    Análise feita com muita propriedade.

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